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05/10/2012 15h00
 

O PROBLEMA DO PT COM A CLASSE MÉDIA: `A MARGEM DAS VOZES...
A.Singer - M.Sergio Conti - Jose de Souza Martins - P.Kliass - P.Timm

 

  Coletânea – O  “lulismo”, o PT e o debate sobre a Classe Média no Brasil

Indice

André Singer: Entrevista- 'O lulismo não é um monopólio do PT'

Mario Sergio Conti - Marcha à ré para a frente

José de Souza Martins – A década includente

Paulo Kliass - Quais são essas "vozes" da nova classe média?

Paulo Timm – À margem das “vozes”...

 

1 - André Singer: 'O lulismo não é um monopólio do PT'

Ao iG, ex-porta-voz da Presidência afirma que outras forças políticas se realinharam em torno do fenômeno, guiados por ações como Bolsa Família e aumento do salário mínimo

Ricardo Galhardo- iG São Paulo | 30/09/2012 07:20:50

 

No recém-lançado Os sentidos do lulismo – reforma gradual e pacto conservador (Companhia das Letras), o cientista político e jornalista André Singer defende a tese de que as políticas sociais e de distribuição de renda do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva criaram um grande bloco de eleitores que impôs uma nova agenda ao País. Isso teria levado todas as demais forças políticas, inclusive a oposição, a se realinharem em torno de ações como o Bolsa Família e o aumento do salário mínimo.

Trajetória de Lula: Do pau de arara ao Palácio do Planalto

Galeria: Veja imagens que marcaram o governo do ex-presidente Lula

Por um lado isso ajudou a diminuir o fosso social que separa ricos e pobres no Brasil. Por outro, obrigou Lula a firmar um pacto com setores mais conservadores da sociedade e a se afastar de bandeiras históricas da fundação do PT. À conjunção destas posições naturalmente antagônicas, Singer batizou de lulismo. Além de pesquisar com rigor científico o fenômeno do lulismo, o autor foi espectador privilegiado de todo o processo, na condição de porta-voz da Presidência da República durante o primeiro mandato de Lula.

Em entrevista concedida ao iG em sua sala na Universidade de São Paulo (USP), Singer disse que o petismo foi engolido pelo lulismo, que o fenômeno ainda deve durar por pelo menos mais uma década e pode ser apropriado por outras forças políticas. Leiz abaixo os principais trechos da entrevista:

Agência Brasil

André Singer, na época em que era porta-voz da Presidência, durante o governo do ex-presidente Lula

iG – Quais as diferenças entre lulismo e petismo?

André Singer- Originalmente o petismo foi organizado em torno daquilo que eu chamo de espírito do Sion ( colégio paulistano onde o PT foi fundado, em 1980) que marcou o partido durante os 20 primeiros anos. A marca fundamental daquele momento é o radicalismo. O PT se assumiu como partido radical dentro de uma cultura política que sempre foi avessa a isso. O Brasil tem uma longa tradição de conciliação. Portanto a grande novidade do PT foi ter assumido uma postura abertamente radical. Existem alguns exemplo de como esse radicalismo se traduziu em ação: a decisão de não votar no Tancredo Neves no colégio eleitoral em 1985, nem na Constituinte, em 1988. Mas talvez o exemplo mais radical foi ao recusar o apoio gratuito que o Ulysses Guimarães ofereceu em nome do PMDB quando Lula tinha condições de vencer Collor no segundo turno da eleição presidencial de 1989. O petismo trazia até 2002 essa marca e o lulismo surgiu a partir de uma mudança dessa definição radical no primeiro e segundo mandatos de Lula, mandatos precedidos por uma campanha com espírito de conciliação que pode ser visto na Carta ao Povo Brasileiro, que tem compromissos de fundo com o capital, ou na escolha de uma aliança com o Partido Liberal que já no nome trazia uma ideologia contrária à do PT e na decisão de colocar como vice um grande empresário brasileiro. José Alencar acabou se revelando um homem extraordinário mas sua escolha é cheia de significados. Aí começa a história do lulismo, que tem a ver com um pacto que chamo de pacto conservador, já sinalizado na campanha de 2002 e que, de fato, foi cumprido.

iG – Qual é a novidade neste modelo?

Singer- Se minha argumentação parasse aqui ela ficaria manca porque não se trata apenas de um pacto conservador. Na medida em que o mandato foi se cumprindo houve uma combinação surpreendente deste pacto conservador com medidas de combate à pobreza e redução da desigualdade. Isso caracteriza uma política econômica que não é propriamente conservadora. É uma coisa nova. Essa combinação de elementos contrários é o que eu chamo de lulismo.

iG – O lulismo engoliu o petismo?

Singer– Dentro do PT, sim. O que chamo de espírito do Sion continua presente no PT e não é irrelevante. Ainda existem alas no partido que pensam em relação à postura original do PT. Não sei quantificar. É uma parcela significativa do partido, mas que deixou de ser predominante. A direção do PT foi em direção ao lulismo. O lulismo virou o programa real do partido.

iG – O lulismo é um monopólio do PT ou pode ser apropriado por outras forças políticas?

Singer– Não é um monopólio do PT. Em 2006 houve um realinhamento eleitoral e os realinhamentos têm a característica de impor uma nova agenda. Isso obrigou a própria oposição a se deslocar em direção a esta nova agenda e a agenda que está fixada é a de combate à pobreza, tanto que em 2010 Serra propôs dobrar os benefícios do Bolsa Família. E isso não foi só retórica. Quando se forma uma nova maioria dotada de estabilidade –e minha hipótese é que isso é uma coisa de longa duração— todas as forças são obrigadas a de algum modo se rearrumar para fazer frente a esta nova agenda. Essa apropriação do lulismo é típica do realinhamento.

Leia também: Desenvolvimento e programas sociais dão nova cara à pobreza

iG – Se o lulismo é um pacto conservador o que explica a reação contrária de setores da elite brasileira?

Singer– Pacto necessariamente implica um acordo entre diferentes, entre forças que têm conflitos. Pacto não significa resolver estes conflitos mas encontrar um modo de viver com eles. Isso implica tensões, separações e oscilações dentro dele. Quando se fala em pacto está reconhecido que existe o conflito. Essa reação tem duas facetas diferentes. A primeira é que a luta de classes continua existindo e se expressa na forte divergência que existe sobre a política econômica que está o tempo todo em jogo. Maior ou menor autonomia do Banco Central? Maior ou menor taxa de juros? Maior ou menor gasto público? E assim por diante. Há decisões extremamente relevantes sendo tomadas o tempo todo que envolvem burguesia e proletariado. Então o conflito central continua de pé e é arbitrado pelo governo que ora pende para um lado, ora para o outro. De alguma maneira, com a mudança do PT, este conflito que era evidente e se expressava no confronto e ntre esquerda e direita, recuou para o fundo da cena. Ele ainda existe mas é mais difícil de perceber. O outro aspecto é que a política de combate à pobreza e redução da desigualdade provocou uma forte reação da classe média tradicional.

Agência Estado

Singer admite que o lulismo engoliu o petismo

iG – É uma reação ideológica?

Singer- Isso tem um aspecto ideológico mas também material. Há uma diferença entre o grande capital, que está olhando para as grandes linhas de política econômica e pressionando numa ou noutra direção, e o que eu tenho chamado de base de massa do grande capital que é a classe média tradicional. Esta parcela está mobilizada por um sentimento de rejeição às políticas sociais que permitiram a mudança no padrão de vida dos setores de baixa e baixíssima renda. Tem um aspecto material nisso porque você pode perceber desde a redução na oferta de mão de obra para trabalho doméstico até a maior presença de pessoas que antes tinham baixa renda em lugares como aeroportos, que antes eram exclusivos dessa classe média tradicional. Isso tem um efeito real na vida deste setor. Por outro lado, parte destes programas sociais foi feita com dinheiro dos impostos. Como o imposto é pago em parte pela classe média, o raciocínio é de que este recur so tem saído do bolso das pessoas que não têm gostado de ver este movimento de chegada de mais gente nos seus espaços. Parece ser algo como uma espécie de crença de que é normal que haja privilégios.

iG – Isso pode levar a confrontos e radicalização?

Singer– Não sei dizer no plano da sociedade. No plano político, observo que há uma espécie de blindagem desse conflito que está posto e determina uma polarização partidária. Apesar dos efeitos do realinhamento que obrigaram a própria oposição a se deslocar em direção a uma certa agenda, PT e PSDB continuam representando polos diferentes na política brasileira. Ainda há uma polarização por causa dessas bases sociais tão diferentes que estão confrontadas. No entanto, passamos por um período prolongado de ausência de radicalização política, uma espécie de paz política. Isso porque o lulismo tem como um de seus componentes não ser mobilizador. A mobilização produziria radicalização e confronto. Como o lulismo é um modelo de mudança dentro da ordem, até com um reforço da ordem, ele não é e não pode ser mobilizador. Isso faz com que o conflito não tenha uma expressão política partidária, eleitoral, institucional. A tal ponto que há uma grande frustração da classe média tradicional porque não há um partido político que expresse essa carga de hostilidade. Imagino que haja até uma frustração de certa forma contida. Mas no que depender do modelo lulista isso vai continuar.

iG – Para algumas pessoas, a oposição mais agressiva ao lulismo está fora dos partidos. O PT, por exemplo, aponta a imprensa. Há espaço para surgimento de um partido que represente os setores contrários ao lulismo?

Singer– Em relação à mídia sempre é preciso lembrar que a garantia absoluta de liberdade de expressão e de imprensa é uma conquista democrática. Não existe democracia sem isso e, portanto, quaisquer que sejam as opiniões que a imprensa tenha, elas precisam ser aceitas dentro funcionamento normal da democracia. Isto posto é preciso dizer, sem criar fantasmas, que de fato tem havido uma certa desarticulação da oposição, que não consegue encontrar um discurso eleitoralmente eficiente para se relacionar com o lulismo, e neste contexto a imprensa às vezes cumpre o papel de fazer um tipo de crítica mais constante e às vezes até mais articulada e definida ao governo. Então poderia se dizer que sim, a imprensa às vezes cumpre o papel de oposição. Mas não acho que tenha espaço para um novo partido. Infelizmente o quadro partidário brasileiro está pouco definido e isso não é bom para a democracia. É uma indefinição que começou com a aliança entre PSDB e PFL em 1994 e continua com as alianças que o PT fez com o PL e depois outros partidos da direita a partir de 2002.

iG – A questão ética e o julgamento do mensalão são ameaças ao lulismo?

Singer– Provavelmente, dependendo do resultado, o julgamento terá impacto sobre toda a política brasileira, inclusive sobre o lulismo. Já a questão ética é uma dimensão de uma certa maneira separada porque ela tem a ver com o patrimonialismo e atravessa a política brasileira de A a Z. Quando fui escrever o livro pensei neste problema e concluí que este é um universo à parte. Não sou a pessoa habilitada para falar nisso porque na minha pesquisa me concentrei na questão da igualdade até porque fomos até pouco tempo o país mais desigual do mundo. Estou, na verdade, tentando justificar uma não resposta.

iG – Quando o modelo do lulismo vai se esgotar?

Singer– Não há como prever mas a tese é de um realinhamento de longo prazo. O lulismo já tem 10 anos. Talvez mais 10 anos.

iG – O lulismo é uma espécie de camisa de força, no sentido de que o sistema eleitoral assimilou o modelo e hoje o replica em todos os locais a instâncias?

Singer– Se você quiser usar a expressão camisa de força é até correto. Mas ela precisa ser compreendida como efeito do realinhamento. É isso que eu chamo de imposição de uma agenda. Não tem como sair dela porque eleitoralmente se constituiu uma maioria. É por isso que houve essa migração de políticos do DEM para o PSD. É para ficar numa posição que não seja antagônica a esta maioria. Se um político antagonizar com a maioria vai perder logo de cara porque fica com a minoria. Mas dentro disso que você chamou de camisa de força vejo um aspecto positivo porque em um país tão desigual quanto o Brasil o fato de ter se formado uma maioria que obrigue seja quem for o governo a fazer política para reduzir a desigualdade é muito importante. A gente precisa olhar para o aspecto grande. Superar este abismo social é o desafio que está posto para o Brasil. O fato de que todos os competidores que têm aspirações majoritárias se sintam constrangidos --e você usou a expressão camisa de força-- a atender essa agenda, eu não acho ruim.

 


 

2.Marcha à ré para a frente

Em Os Sentidos do Lulismo, André Singer discute se os trabalhadores progrediram ou regrediram nos governos do PT

Revista PIAUI - Edição 72 > _tribuna livre da luta de classes > Set 2012

 

por MARIO SERGIO CONTI

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No final de Os Sentidos do Lulismo, André Singer diz que muita coisa importante não decorre da luta de classes, “mas algumas decorrem”. É o caso de seu último livro, que faz uma análise com base na perspectiva das classes sociais dos oito anos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Singer é membro de longa data do Partido dos Trabalhadores. Jornalista profissional, ele foi secretário de redação da Folha de S.Paulo no final dos anos 80 e, com a experiência de repórter e editor, tornou-se porta-voz da Presidência da República no primeiro mandato de Lula.

Apesar disso, Os Sentidos do Lulismo não é obra de petista militante nem de jornalista. É um livro que reflete a opção tomada pelo autor ao sair do governo: a de se tornar tão somente um intelectual. No retorno do Planalto à Universidade de São Paulo, onde estudou e se tornou professor, ele voltou a dar aulas de ciência política, publicou ensaios sobre o lulismo e defendeu uma tese de livre-docência sobre o assunto que, modificada, deu origem ao livro recém-lançado pela Companhia das Letras.

A opção existencial de Singer pela academia fez com que, além da pergunta que orientou o seu trabalho – o que foi, e é, o lulismo? –, outro núcleo de questões percorresse a elaboração de seu livro: a tentativa de compreender a realidade não seria propaganda, ou uma justificativa disfarçada dos atos do governo do qual participei? Como faço para que a minha subjetividade não interfira nas conclusões?

Cada vez que a dúvida o abordava, Singer voltava às pesquisas eleitorais e de opinião pública, e reestudava as hipóteses de estudiosos que pensaram o mesmo período, chegando a conclusões dessemelhantes. Com zelo redobrado pelos elementos empíricos, e minúcia no debate de teses diversas das suas, Os Sentidos do Lulismo tem como primeira virtude a clareza. O livro organiza as informações – sobretudo índices sociais e econômicos, sob o ângulo das classes – acerca da natureza das modificações que se deram nos oito anos da administração Lula. A segunda virtude decorre do mesmo procedimento: Singer avança as suas hipóteses pé ante pé, cautelosamente, buscando escorá-las com números e informações.

Tais aproximações adquirem eficácia redobrada no panorama conturbado do colunismo político atual, marcado pela polarização aguda entre situação e oposição: na grande imprensa, a maioria dos colunistas é cega (e patronalmente) contra o governo anterior; na internet, boa parte de blogueiros e assemelhados é obtusa e (governisticamente) elogiosa a Lula.

Frente à gritaria – muitas vezes com motivação argentária – de uns e outros, sobressai a solidez de Lulismo. Essa solidez conduz a conclusões que, se racionalizam e revelam o sentido positivo dos governos petistas inaugurais, não permitem concluir que tal política possa vir a alterar de maneira duradoura a situação dos trabalhadores. O próprio subtítulo, que cristaliza a hipótese do livro, está longe de ser elogioso ou eletrizante: “Reforma gradual e pacto conservador.”

 

ndré Singer não faz propriamente uma análise histórica para demonstrar que a sociedade brasileira é conservadora. Tampouco situa o Brasil na paisagem contemporânea para demonstrar que, numa maré de reação capitalista, o conservadorismo teria razão de ser. Lulismo alude a certas condicionantes históricas (peso do passado escravocrata, décadas recentes de ditadura, tradição política predominantemente conciliatória) e sociológicas (precariedade da implantação capitalista e, por consequência, da organização independente dos trabalhadores, sindical ou partidária). No mais das vezes, ele vê o conservadorismo via pesquisas de opinião pública e resultados eleitorais.

Tais procedimentos podem ser enganosos: lembrar, numa enquete, a última onda de greves não significa, em si, que o entrevistado seja conservador em política. E às vezes a conclusão sobre o conservadorismo serve para justificar conjunturas pontuais. Lulismo sustenta, por exemplo, que a chave para entender a primeira eleição de Lula à Presidência encontra-se no movimento do PT para a direita na campanha eleitoral, consubstanciado na Carta aos Brasileiros (na qual o partido aderiu sem ambiguidades à manutenção da ordem) e na autodefinição do candidato com um mote conciliador, “Lulinha paz e amor”. Chega-se então a uma tautologia circular: o eleitorado mais pobre é conservador, e por isso votou no Lula que se apresentava como candidato da ordem.

O argumento deixa em segundo plano a história do Partido dos Trabalhadores, que surgiu e cresceu justamente por ser radical: votou contra Tancredo e Sarney no Colégio Eleitoral da ditadura, assinou com ressalvas a Constituição de 1988, não fez aliança com partidos da burguesia em 1989. Para Singer, esse PT não existe mais, acabou, tem uma base social diferente daquela que o definiu na fase inicial. E o novo partido que surgiu dos seus escombros se move segundo a dialética entre pobres e ricos, e não da luta classista de trabalhadores contra burgueses.

O autor também abstrai o colapso do real no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, a queda dos salários e o aumento do desemprego, configurando uma situação contra a qual o PT e o seu candidato se insurgiram nas eleições.

Já a reeleição de Lula é atribuída a uma política que não é conservadora tout court. Ou, ao menos, é de um conservadorismo distinto do que explicou a eleição anterior: a política do Bolsa Família e demais programas compensatórios, do aumento real do salário mínimo, do acesso ao crédito. Esse conjugado de medidas provocou, segundo Lulismo, um realinhamento da base eleitoral do ex-presidente. O candidato e o seu partido perderam apoio da classe média, que teve seu peso social relativizado pela ascensão da nova leva de consumidores pobres. Lula criou então raízes onde nunca conseguira antes, entre os nordestinos pobres do interior, a quem o Estado não assistia. Singer chama o núcleo dessa nova base de “subproletariado”, uma fatia numerosa da classe trabalhadora.

 

esse ponto da exposição, o autor recorre a’O 18 Brumário de Luís Bonaparte, no qual Marx analisa o golpe de Estado de 1851, que derruba a república francesa e eleva Luís Bonaparte ao trono. É o ponto também em que Lulismo cresce: Singer usa a imaginação sociológica quando recorre a uma das ideias centrais da política moderna, a da representação, e a um dos regimes que marcam a crise da própria ideia de representação, o bonapartismo.

 

Em 2 de dezembro de 1851, diz O 18 Brumário, Bonaparte só pôde triunfar, e ser coroado Napoleão III, porque pertencia a uma dinastia criada na Revolução Francesa, a qual aboliu os privilégios feudais e sacramentou a pequena propriedade fundiária. Essa massa de pequenos proprietários camponeses vivia isoladamente, com laços sociais e comerciais tênues. Nos seus roçados, era irrisória a divisão de trabalho, a aplicação das ciências, a diversidade de desenvolvimento, a variedade de talentos. Como diz a imagem famosa:

A grande massa da nação francesa é constituída pela simples adição de grandezas equivalentes, mais ou menos como as batatas num saco formam um saco de batatas.

É por isso que os camponeses, o saco de batatas, não constituem uma classe. Não constroem uma organização política que defenda seus interesses materiais, em oposição a outras classes. Os camponeses, afirma Marx, não podem se representar a si mesmos, eles devem ser representados. É preciso que o representante deles apareça simultaneamente como o seu mestre, como uma autoridade superior, como um poder governamental ilimitado que os protege contra as outras classes e lhes dispensa do alto a chuva e o tempo bom.

Nenhuma analogia de fundo histórico tem encaixe perfeito. Quanto mais duas situações são aproximadas – como o golpe de 1851 na França e o Brasil do início do século XXI–, o que predomina são as diferenças. Num e noutro caso, de fato, as dessemelhanças são enormes: antes isolamento na roça, e hoje onipresença dos meios de comunicação massificadores; lá, abolição prévia do latifúndio no século XVIII, e aqui a vigência da grande propriedade, no XXI; na França de então, o Exército tinha papel preponderante, e no Brasil de hoje as Forças Armadas estão fora da política. Ainda assim, há o mesmo motor (parado): o papel passivo do campesinato do século XIX e a pasmaceira política do Nordeste agrário que votou em peso no Lula do Bolsa Família.

A representação política na qual uma massa popular delega ao líder o papel de representá-la parece espelhar a situação de Lula no segundo mandato. Esse apoio passivo lhe deu condições de conceder benesses aos superpobres. E também de atender aos reclamos dos super-ricos, na forma da ampliação de mercado propiciada pelo Bolsa Família e na concessão de ganhos rentistas maiores ao capital financeiro. O líder assim se alçou do solo das classes, pairando acima delas na sua política de conciliação.

Singer se recusa a rotular esse contingente de trabalhadores que adquirem algumas condições de consumo de “nova classe média”, como fazem os publicitários. Chama-os de subproletariado, fração atomizada de uma classe que quer ser protegida pelo líder e o Estado. Um subproletariado que desfruta de uma renda pequena, mas constante e impessoal. E que pode fazer crediário e comprar determinados bens de massa. Com essas melhorias na vida de uma porção dos trabalhadores, diminuíram os problemas mais graves do Brasil, a pobreza e a desigualdade social.

 

Lulismo avança então outra analogia. Com o realinhamento eleitoral de 2006, confirmado com a eleição de Dilma Rousseff, a nova organização dasclasses abriu um período duradouro no Brasil. Essa situação histórica teria parecença com o New Deal, o “novo acordo” feito pelo presidente F. D. Roosevelt nos anos 30, que combateu a recessão econômica, dirimiu a pobreza extrema e reconfigurou a economia americana.

A analogia não funciona com a força da anterior, com O 18 Brumário. Ela é mais especulação mal-ajambrada do que esclarecimento real. Isso ocorre porque a imagem literária de Marx – o campesinato enquanto saco de batatas – é uma metáfora sugestiva, fruto de uma análise política histórica e materialista, que adquiriu lugar de destaque nos conceitos da política moderna. Já o New Deal foi um conjunto de situações e medidas governamentais. Não é uma categoria política.

Ele foi o produto de um longo processo de lutas sindicais, e não apenas da eleição de Roosevelt. Visava combater a recessão provocada pela crise sistêmica do capitalismo em 1929. Suas principais medidas foram o investimento em obras de infraestrutura, o controle da produção e dos preços de consumo, a criação do seguro-desemprego, a proteção da velhice, e a edificação do sistema público e de Previdência. Entre as ações mais extremas estiveram a queima de estoques (para forçar a queda de preços) e a redução da jornada de trabalho (objetivando criar novos postos de emprego). Tudo isso tem pouco a ver com o Bolsa Família e o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC.

Singer realça o que lhe importa do NewDeal: a abertura de uma era de domínio do Partido Democrata na Casa Branca e, nos anos 50, a adaptação do republicano Dwight W. Eisenhower ao programa dos adversários. E compara: na eleição de 2010, o tucano José Serra divulgou um plano que aumentava a abrangência do Bolsa Família. Ou seja, prometia aumentar o que o PT fazia, demonstrando uma igualmente suposta adesão do principal partido de oposição a uma plataforma.

Essa adesão, para Lulismo, caracterizaria a união do Brasil, como nos Estados Unidos do New Deal, em torno do objetivo de mitigar a desigualdade social, diminuindo drasticamente o número de pobres, e permitindo o acesso deles a bens controlados pelo Estado.

Nas primeiras versões do livro, em artigos publicados na imprensa, a associação entre o New Deal e a conjuntura nacional era bem mais direta e mecânica. Na versão final, Singer atenuou e matizou a analogia. Agora ele fala em “sonho rooseveltiano do segundo mandato”, e expõe a sua hipótese principal na forma de pergunta: “Será o lulismo um reformismo fraco?”

Singer mora numa casa na Vila Madalena, a vinte minutos (sem trânsito) do campus da USP. Oriundo de uma família austríaca de esquerda, ele é um professor sereno, que não se emociona ao defender seu livro de restrições e ataques. Ele não espera que Lulismo seja lido por políticos profissionais do calibre de Lula, Dilma Rousseff e José Serra. E muito menos que venha a influenciá-los diretamente. No máximo, espera que seja lido por colegas de universidade, alunos e interessados em pensar o que ocorreu no governo anterior. E que, lentamente, algumas das suas ideias venham a ser usadas no debate político. Por essa via, quem sabe, tenham peso na vida nacional.

Ele descrê da revolução. Também não acredita na existência de um método marxista de apreensão e mudança da realidade. Pesquisador eclético, é um socialista reformista que “morrerá feliz”, conforme disse, se a sua geração (ele nasceu em 1958) acompanhar a diminuição da abissal desigualdade social brasileira – e que seja reduzido o panache da minoria, numericamente desprezível, que aufere rendas iguais às de mais da metade do povo brasileiro.

 Pelo que ele escreve em Lulismo, o objetivo do fim da desigualdade radical estaria sendo gradualmente alcançado. E, igualmente significativo, nenhuma força política expressiva seria contra ele. Afinal, muitas empresas se beneficiam da expansão do crédito consignado, do poder de compra e do endividamento dos mais pobres.

Singer disse que a incorporação da nova massa de trabalhadores ao universo da cidadania está longe de ser o que ele, pessoalmente, considera adequada. A velocidade da inclusão é vagarosa – ainda não se atingiu o patamar existente quando do golpe de 1964, que aumentou o arrocho salarial e o desemprego. E, apesar dos ganhos recentes, a pobreza ainda é gritante. Ao se reconhecer que ela é caracterizada em muitos países pela ausência do acesso a bens mínimos para a vida – caso de esgoto, saúde e educação de nível –, o Brasil continua paupérrimo: mais de metade da população não dispõe de moradias com esgoto.

Por fim, programas como o Bolsa Família não se transformaram em direitos. Apesar das promessas recorrentes de Lula e Dilma, eles não foram emendados à Constituição, o que só pode ser feito com a aprovação de três quintos do Congresso. Por isso, em todos os quadrantes, Getúlio Vargas é considerado um presidente mais significativo, historicamente, do que Lula: nos seus governos, o salário mínimo, as férias gratuitas e toda uma série de benefícios foram institucionalizados por meio da Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT.

 

a entrevista em sua casa, Singer se lembrou de Família Braz, os dois documentários que retratam a ascensão social de pai, mãe e filhos de um bairro periférico de São Paulo, a Vila Brasilândia. No segundo filme da série, a família que pouco tinha dispõe agora de quatro carros e vários eletrodomésticos. “A casa deles, porém, continua a mesma: pequena e desconfortável”, disse Singer. “E ter uma casa própria decente é um índice da incorporação social que continua muito longe da vida da maioria das pessoas.”

Singer acha que a incorporação poderia se dar de maneira mais rápida. Mas observa que, para se aumentar o ritmo da ascensão social, seria preciso fazer antes uma análise meticulosa da correlação de forças das classes. Ele nota que a pequena burguesia tradicional viu com repulsa a melhoria da condição dos mais pobres. Relembrem-se as imagens caras aos arautos do ressentimento: os aeroportos viraram rodoviárias; os bairros ricos têm que continuar “diferenciados”; o trânsito piorou porque agora todo mundo tem carro; não se encontram mais empregadas domésticas; todo petista é ladrão, Lula é analfabeto, Dilma não sabe falar etc.

Acelerar a redução da sobrepopulação superempobrecida, mesmo que sem afrontar o capital, implica enfrentar a demofobia aparatosa da classe média tradicional. Ela é insuflada por parte do grande capital e conta com os bons serviços de partidos, empresas, universidades, a academia, ideólogos e órgãos de comunicação. Muitos deles já demonstraram, desde Machado de Assis, como suportam pacientemente o sofrimento alheio. Mas se tornam belicosos – marcham com Deus pela Família e a Propriedade, apoiam que se arranquem as unhas de oposicionistas etc. – quando desafiados, mesmo que por meio da mera presença física, por trabalhadores que não sabem o seu lugar. E o lugar certo deles é na frente da televisão: para que possam acompanhar a subtrama só deles no kitsch novelesco das oito da noite, e consumir mercadorias comezinhas em prestações (e juros) a perder de vista.

O papel dos intelectuais de esquerda, avalia Singer, seria pressionar pelo aceleramento da diminuição da pobreza, ao mesmo tempo que avalia a conjuntura e a relação de forças entre as classes. Seria preciso bem aquilatar a reação dos reacionários, para, se for o caso, avançar: vide o que ocorreu em março de 1964.

 

Lulismo é encerrado com um posfácio de ordem pessoal, que resume a trajetória do autor. Ele tem como título um verso de Carlos Drummond de Andrade que alude a situações de bloqueio, desafio e enigma: “No meio do caminho tinha uma pedra.” O empecilho geral do título é retomado nos três subtítulos que dividem o posfácio: “tempos de esperança”, “tempos de experiência” e “tempos de reflexão”.

André Singer pertence à geração que despertou para a política na década final da ditadura militar. Eram tempos de esperança porque se impunham derrotas aos militares, e o movimento dos trabalhadores renascia com uma perspectiva antistalinista e democrática. Na cena internacional, o imperialismo americano era derrotado no Vietnã, a Revolução dos Cravos derrubava a ditadura em Portugal e a burocracia periclitava ante o sindicalismo livre do Solidariedade.

Mas havia uma pedra no meio do caminho. A ditadura não caiu devido à força popular, a modernização conservadora tomou o lugar do radicalismo, a adesão ao projeto neoliberal foi feita à custa de arrocho e mais concentração de renda até que, por fim, o PT tomou o poder. Foram tempos de experiência para André Singer. Tempos também de expectativas sociais rebaixadas, de adaptação pragmática aos horizontes do capital e, a se depender da pessoa ou grupo, de desencanto ou cinismo.

 

gora, os tempos são de reflexão. A meditação feita por Singer em Lulismo, além de clarear os limites das transformações operadas nos últimos dez anos, pode servir também para condensar a imagem que o regime faz de si mesmo, no plano intelectual: sublinhar os ganhos populares no período, não enxergar alternativas mais rápidas de progresso, advogar a conciliação e não a luta de classes, combater a desigualdade miúda e receosamente, sem recorrer à mobilização dos mais fracos nem injuriar o capital.

É uma reflexão que não se preocupa em localizar a situação brasileira no âmbito do capitalismo mundializado. Lulismo cita mas não se estende na investigação do papel do crescimento acelerado da China na sustentação das taxas de exportação de matérias-primas nacionais. Ou a desindustrialização local. Ou a financeirização crescente do capital. Ou o avanço da terceirização e dos serviços nas grandes cidades, em detrimento do trabalho propriamente proletário. Ou a explosão dos planos de saúde e de ensino privados, mercantilizando setores que a Constituição de 1988 e todos os congressos e programas do PT consideravam dever do Estado e direito do povo. Reconheça-se que, para dar conta de tudo isso, talvez fosse preciso esperar alguns anos, e então escrever outro livro.

Mas como Singer nota a situação geral apenas num adendo final, a experiência brasileira adquire, na sua visão, um caráter mais linear. O que também facilita sonhar com um período de longa duração no qual se reconhecesse como tarefa “nacional” – e não de uma classe e seus aliados – a diminuição da pobreza.

É isso mesmo, um sonho: a adesão do grosso da burguesia brasileira a esse objetivo não ocorreu. Umas poucas frases do candidato do PSDB em prol do Bolsa Família, num programa eleitoral, têm tanto significado quanto a promessa de aumento do salário mínimo. Como ensinaram os governos de Fernando Henrique Cardoso, uma coisa e a outra não são prioridades para os tucanos.

De forma semelhante, acontece em Lulismo o mesmo com a política internacional. Primavera Árabe, crise do euro, recessão na Grécia e na Espanha, Ocuppy Walt Street, a falência do neoliberalismo na América Latina – todos esses movimentos, de alcance maior ou menor, influenciam e influenciarão a situação nacional. Os governos Lula se beneficiaram de uma situação internacional que lhe foi favorável, principalmente do desenvolvimento do capitalismo na China, conduzido por uma ditadura de partido único, nominalmente comunista. E é impossível prever até quando tal situação perdurará, propiciando a manutenção da situação brasileira dos últimos anos.

Quanto à integração dos programas assistenciais na Constituição, por certo que não é indiferente se um ganho material é anexado à Lei Maior. Mas essa codificação, por si só, pouco garante. No próprio 18 Brumário, Marx observa que a Constituição exigia que o presidente da República tivesse cidadania francesa, e Luís Napoleão tornou-se o primeiro presidente com cidadania... suíça. Nada é pétreo numa Constituição.

Perto de nós, a Constituição de 1988 tem um punhado de artigos garantindo direitos populares básicos – e eles são letra morta por desígnio do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Agora mesmo, ao lado, no Paraguai, um presidente foi afastado do poder em poucas horas (com os aplausos entusiasmados da elite brasileira, e murmúrios pro forma do petismo), apesar de a Constituição do país garantir o direito de defesa.

 

 antagonista explícito de Lulismo, nomeado pelo próprio André Singer, é o sociólogo Francisco de Oliveira. A desavença entre ambos diz respeito à caracterização do resultado social dos governos Lula. Para Singer, como se viu, a fase é de progresso, de incorporação dos trabalhadores na vida nacional. Apesar de o progresso ser lento e precário, há uma queda real da desigualdade.

Para Oliveira, a fase é de regressão. Com a economia nos centros capitalistas numa fase de revolução científica e tecnológica, os programas assistenciais brasileiros mantêm os trabalhadores à margem do progresso real. Com isso, os governos petistas aceitam a desindustrialização e o atraso social. Diminuir a desigualdade nesse quadro é uma quimera: os super-ricos brasileiros existem porque há os superpobres. Uma condição não existe sem a outra.

No âmbito da política, os governos de Lula, continuados pelo de Dilma, desmobilizaram as iniciativas vindas de baixo. Sindicatos, Movimento dos Sem Terra, centrais de trabalhadores, todos foram, alguns menos e outros inteiramente, cooptados pelo poder. Lula vestiu o velho figurino populista do líder providencial, que concede benemerências e pede votos. Assim como a sua sucessora, foi auxiliado pela indústria cultural, pelas igrejas e seitas religiosas, e pelo PT que fez as pazes com o capitalismo.

O modelo do lulismo não parece ser apenas Luís Bonaparte, o Pequeno. Ele também comporta Getúlio Vargas, o Outro Pequeno. Um Getúlio que, quando a reação udenista e militar o encurralou no Palácio do Catete, em 1954, não houve povo organizado que o defendesse. Estava ele, o povo, com as bênçãos do PCB, desorganizado e entregue à lógica da mercadoria. Só saiu às ruas com o suicídio do líder. Mas aí já era tarde. 

 

 

 

3 . A década includente

A melhora na distribuição de renda das populações oriundas das duas escravidões do País é também um avanço na emancipação que as libertou pela metade

30 de setembro de 2012 | 3h 07

·    Notícia

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA , DA USP, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE EXCLUSÃO SOCIAL, A NOVA DESIGUALDADE (PAULUS) - O Estado de S.Paulo

Ouço, num link de transmissão sonora e visual do site do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), a exposição com que seu presidente, Marcelo Neri, dá aos jornalistas a boa notícia de que na última década a distribuição de renda no Brasil melhorou. Sumariza ele os resultados do estudo A Década Inclusiva (2001-2011) - Desigualdade, Pobreza e Políticas de Renda. Diminuiu a distância entre os mais ricos e os mais pobres. Ao mesmo tempo, tenho diante de mim a primeira página de O Estado de S. Paulo de 5ª feira. Nela, uma fotografia de Tiago Queiroz retrata um miserável encolhido de frio sob um improvisado barraco na rua, feito de placas de propaganda de candidatos a vereador na cidade de São Paulo.

O nó da feliz estatística anunciada está em baixo daquele tapume. A começar pelo fato de que os dados para medição da distribuição de renda se baseiam na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD. Aquele barraco não é domicílio, como não o é o chão em que milhares de pessoas, em nossas cidades, dormem no pesadelo cotidiano da incerteza. Os que mais carecem não são alcançados nem pela distribuição da renda nem pelas estatísticas sobre pobreza.

Neri não pretende passar um retrato descabidamente otimista sobre a melhora relativa na repartição dos ganhos da economia. Antes, assinala que estamos chegando ao padrão de distribuição de renda que tínhamos em 1960, embora a sociedade fosse mais pobre que hoje. Poderíamos definir esse meio século como o longo tempo da modernização da pobreza no Brasil, uma pobreza, agora, de privações dramáticas. Serão necessários pelo menos 20 anos para chegarmos ao padrão de distribuição desigual da riqueza de países como os EUA. Mas ainda temos lastro para incrementar a distribuição de renda e atenuar as desigualdades que nos afligem. Na média, nossos pobres estão se tornando apenas menos pobres.

O estudo se baseia no pressuposto de que a pobreza dos 10% mais pobres é apenas uma questão de grau em relação aos 10% mais ricos. O Bolsa-Família e o programa de Benefício de Prestação Continuada, programas compensatórios do governo que incrementam a renda dos mais pobres, são decisivos para atenuar a distribuição desigual de renda. O estudo econômico não avalia, porém, nem tem por que avaliar, que esses benefícios não deslocam necessariamente o eixo social de referência dos beneficiados, especialmente os pobres do campo, cuja economia pré-moderna é predominantemente baseada na produção direta dos meios de vida.

As doações financeiras do governo, não obstante, corroem a lógica econômica dessas populações, incrementando em sua vida necessidades sociais que dependem de mais dinheiro e mais mercadorias de fora de seu sistema econômico restrito. Um processo clássico de desenraizamento de populações retardatárias da história, tão característico do Brasil e da América Latina.

É nessa perspectiva que se pode analisar uma das importantes constatações do estudo, a de que "a renda daqueles que se identificam como pretos e pardos sobe 66,3% e 85,5% respectivamente, contra 47,6% dos brancos". Uma de suas conclusões é a de que: "Mais que o país do futuro entrando no novo milênio, o Brasil, último país do mundo ocidental a abolir a escravatura, começa a se libertar da sua herança escravagista".

Ora, a distinção censitária de pretos e pardos e, aqui, a indicação da melhora diferencial que tiveram na distribuição de renda precisam ser devidamente matizadas. O censo mostra que a maior concentração dos que se identificam como pardos está no Norte do País e a maior concentração dos que se identificam como pretos está no Nordeste litorâneo, o chamado Nordeste açucareiro. Embora haja uma tendência confusa no sentido de tratar os pardos como negros que se envergonham de sua negritude, o fato é que a concentração regional nos diz que os pardos não são mulatos, são pardos mesmo, como eram classificados no período colonial os índios administrados, aqueles submetidos a cativeiro. Oriundos, pois, de uma escravidão jurídica e sociologicamente distinta da escravidão negra, formalmente libertados pelo Diretório dos Índios do Maranhão e Grão-Pará, em 1755. Diferentes do negro libertado pela Lei Áurea de 1888. Ambos os grupos mantidos à margem da liberdade jurídica que lhes fora concedida e reduzidos a formas disfarçadas de servidão.

Nesse sentido, o que aparece como melhora na distribuição de renda, em relação sobretudo às populações oriundas das duas escravidões que tivemos (e da terceira que ainda temos), é também um avanço na emancipação que as libertou pela metade. O pequeno incremento de renda que os setores mais pobres da sociedade tiveram na década permite-lhes, ainda que na crua contradição de inserção mais ampla no mercado e maior corrosão de seus costumes e de seu modo de vida, acelerarem sua travessia histórica para a sociedade moderna.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-decada-includente,937939,0.htm

O PROBLEMA DO PT COM A CLASSE MÉDIA: `A MARGEM DAS VOZES...
As vozes além e aquém de um Teatro Infantil

DEBATE ABERTO www.cartamaior.com.br

 

4.Quais são essas "vozes" da nova classe média?

Paulo Kliass

 

Renda do capital ainda é renda do capital, assim como renda do trabalho continua sendo renda trabalho. Por mais que a remuneração mensal dos despossuídos tenha evoluído, o conceito de classes sociais e seus conflitos de interesses continuam valendo para a análise do modo capitalista de produção.

 

Paulo Kliass

 

A Presidência da República está colocando em marcha uma delicada operação política, que pode trazer conseqüências perigosas para a análise e a compreensão de nossa realidade social e econômica. Tudo começou com o anúncio, por parte da Secretaria de Assuntos Estratégicas (SAE), do lançamento de um novo programa, considerado prioritário no âmbito do governo. Foi batizado com o nome de “As Vozes da Classe Média”.

Em tese, nada demais a chamar atenção, não é mesmo? Afinal, esse tema da classe média tem ocupado as páginas dos grandes jornais de forma crescente, ao longo dos últimos tempos. No entanto, vale a pena chamar a atenção para alguns elementos do entorno desse programa em especial e do simbolismo político envolvido com o fato. O atual titular da SAE é o dirigente do PMDB/RJ, Wellington Moreira Franco, que substituiu o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães desde o início do mandato da Presidenta Dilma. O órgão mais importante de sua pasta, porém, é o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), que era presidido desde 2007 pelo economista Marcio Pochmann, professor da UNICAMP e pesquisador crítico das correntes mais conservadoras dos vários campos das ciências sociais. Sob tais condições, o ministro carioca pouco conseguia influenciar na política interna do instituto.

As mudanças na direção do IPEA: de Pochmann a Neri
Convencido a disputar a prefeitura de Campinas pelo PT, Pochmann pediu demissão do cargo e Dilma optou há poucos dias pela nomeação definitiva de outro economista: Marcelo Neri, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV/RJ). Com esse passo, a avaliação reinante nos corredores do poder é que o conservadorismo tem todas as possibilidades de retornar às áreas dirigentes do IPEA. Independentemente de sua competência técnica e suas qualidades profissionais, o novo presidente do órgão representa grupos e correntes ligados à ortodoxia econômica e à ressonância de todo o pensamento neoliberal em solo tupiniquim. Afinal, as posições da FGV são mais do que conhecidas nesse domínio.

O lançamento do novo programa “Vozes da Classe Média” é a perfeita expressão política de mais um movimento de mudança no interior do governo. Neri é um estudioso da questão da distribuição de renda e coordenou recentemente uma publicação chamada “A nova classe média – o lado brilhante da base da pirâmide”, onde todo o foco reside nessa suposta nova composição de classe social em nossas terras. Do ponto de vista político, o trabalho articulado pelo pesquisador da fundação carioca cai como sopa no mel para os dirigentes políticos governistas. Tanto que a própria Presidenta fez referência pública ao autor, em um evento no Rio de Janeiro, ainda em abril passado,
elogiando e recomendando a leitura da obra. Bingo: o recado político estava dado, para quem quisesse ouvir. Talvez tampouco seja mera coincidência o fato do PT não ter lançado candidato a prefeito no Rio de Janeiro e do governo federal apoiar o peemedebista Eduardo Paes, sempre ao lado do governador Sérgio Cabral, também do PMDB e muito prestigiado pelo núcleo duro de Dilma. O círculo se fecha.

Já Pochmann, havia lançado um livro com interpretação bastante diferente desse oficialismo chapa branca. A Editora Boitempo publicou há pouco a obra
“Qual classe média?”, que chama a atenção logo de início pelo ponto de interrogação no próprio título. Como estudioso sério e crítico, o ex-presidente do IPEA lança uma série de indagações a respeito da suposta unanimidade em torno desse “novo” conceito de classe média. E demonstra que não se pode confundir a inegável melhoria nas condições de renda na base da sociedade com a transformação em sua estrutura de classes sociais. Com a devida vênia de nossa Presidenta, eu recomendaria também a leitura do livro de Pochmann. No entanto, por se tratar de um estudo que não compartilha desse clima de oba-oba ufanista e irresponsável, ele não é tão útil nem funcional para alavancagem da política governamental no varejo e no cotidiano. Afinal, a honestidade intelectual exige alguns “poréns” e algumas observações de reparo metodológico. Xi, lá vem o chato do Paulo Kliass outra vez... Pois é, são os ossos do ofício!

“Voices of the poor” e “Vozes da classe média”: do Banco Mundial à SAE

Em sua apresentação oficial, está dito que o programa “Vozes da classe média” pretende servir como parâmetro para a elaboração de políticas públicas pelo governo federal. Talvez não seja por outra simples coincidência que ele tenha recebido esse nome. Na verdade, trata-se de uma quase versão para o português de um conhecido programa do Banco Mundial lançado lá em 2000, na virada do milênio, que é chamado de
“Voices of the poor” (Vozes dos pobres). Era uma tentativa de ouvir e estudar o fenômeno da pobreza ao redor do mundo, incluindo países como Brasil, Etiópia, Índia, Indonésia, Uzbequistão, entre outros. Mas para além desse vício de paternidade, o caminho que o governo pretende adotar agora contém graves equívocos metodológicos. Como a idéia é sempre elogiar o suposto sucesso da política de melhoria das condições da população da base da pirâmide, entra em marcha um verdadeiro “vale-tudo” no sentido de organizar, rearranjar e espremer os números e os dados estatísticos. O objetivo é oferecer resultados convincentes e belas conclusões. Tudo perfeito e adequado para o recheio do discurso oficial, a ser faturado politicamente.

Parte-se de um fato inegável: ao longo dos últimos anos, a política de transferência de renda (via programas como Bolsa Família) e a política de valorização do salário mínimo foram o carro chefe de uma transformação significativa nas condições da população mais pobre em nosso País. Com elas vieram também a ampliação dos benefícios concedidos pela previdência social, a melhoria das condições no mercado de trabalho e o acesso ao crédito. No entanto, também é amplamente reconhecido que a política econômica desse período continuou a favorecer e beneficiar as camadas mais ricas de nossa sociedade, por meio da política de juros elevadíssimos (que só começou a mudar no último ano), das isenções fiscais, das desonerações tributárias, da ampliação da privatização e toda a sorte de benesses dirigidas ao capital em geral e ao setor financeiro em particular.

Assim, apesar de ter ocorrido uma melhoria na distribuição na base da sociedade, o restrito topo da pirâmide foi ainda muito mais beneficiado. E como os níveis da desigualdade e de concentração são muito elevados, o aspecto significativo seria analisar o que ocorreu com os 0,5% mais ricos na comparação com os 99,5% restantes. Se pegarmos faixas amplas com os 10% ou 20% das famílias com maior renda, estaremos misturando alhos com bugalhos e as conclusões serão, obviamente, apressadas e equivocadas. Isso porque os dados utilizados vêm da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, onde apenas uma pequena amostra do total das famílias responde a um extenso questionário de forma voluntária. Com isso, os domicílios familiares de renda mais elevada tendem a subestimar as informações fornecidas a respeito dos valores e das fontes de seu rendimento efetivo.

Os números do programa e as conclusões equivocadas

De acordo, com o programa “Vozes da classe média”, os limites para fazer parte desse novo recorte de “classe” são os seguintes: de R$ 291 a R$1.091 como renda mensal familiar per capita. Dessa forma, as conclusões são uma maravilha! Mais de 50% da população brasileira estão nesse perfil – um total superior a 100 milhões de pessoas. Então, vamos lá verificar – na realidade concreta da vida real - quem está enquadrado dentro dessa inovadora definição de “nova classe média” e quem já está recebendo uma renda tão elevada que está até acima desse nível, passa a fazer parte das elites, da classe alta.

Consideremos o caso de um jovem casal, sem filhos. Um dos cônjuges recebe um salário mínimo e o outro está desempregado. Sua renda mensal é de R$ 620, o que nos permite concluir uma renda per capita de R$ 310 a cada 30 dias. Imaginemos ainda que seus vizinhos sejam um casal com 2 filhos, onde os pais trabalham e recebem cada um deles salário mínimo também. A renda mensal da família é de R$ 1.240, com uma renda per capita de R$ 310, como no caso anterior. Vejam que ambas as famílias são integrantes da “nova classe média”, pois estão acima do patamar mínimo de R$ 291, o que lhes permitiria a chave de acesso ao paraíso do consumo, segundo as capas das revistas semanais penduradas nas bancas de jornal. Pouco se fala a respeito da qualidade dos serviços públicos que recebem, como saúde, educação, saneamento, transporte público, etc. O que importa é a renda auferida.

Cabe ao leitor optar: o estabelecimento arbitrário desses valores seria ato de ingenuidade ou de maldade? Afinal, não é lá muito difícil contabilizar os níveis de despesa mensal dessas unidades familiares: o transporte coletivo numa grande cidade; o aluguel de moradia em péssimas condições; as contas de água, luz e telefone celular; o gás para cozinha; as compras de cesta básica e seus complementos; etc. Ora, o retrato é de uma sobrevivência nesse nível básico, que não permite quase nenhuma capacidade de poupança, nem o usufruto das boas condições de vida. Quem teria a coragem de afirmar que esses indivíduos seriam integrantes da “nova classe média”? Em sentido oposto, Pochmann nos oferece uma interessante reflexão a respeito do fenômeno, na apresentação de seu livro:

“O adicional de ocupados na base da pirâmide social reforçou o contingente da classe trabalhadora, equivocadamente identificada como uma nova classe média. Talvez não seja bem um mero equívoco conceitual, mas expressão da disputa que se instala em torno da concepção e condução das políticas públicas atuais.”

Por outro lado, tão ou mais impressionantes são as conseqüências da definição casuística do limite superior para o enquadramento em “nova classe média”. Imaginemos outra vez a situação de um casal típico de assalariados, com um filho. Ele acabou de conseguir um emprego numa empresa automobilística no ABC e recebe o piso da categoria. Ela é empregada de um banco e também recebe o piso salarial assegurado pelos acordos dos sindicatos com a FENABAN. A renda mensal do trio familiar supera R$ 3.300, com um equivalente per capita superior aos R$ 1.091 do programa oficial do governo. Dessa forma, a conclusão é assustadora: pasmem, mas essa família de trabalhadores não seria mais integrante da “nova classe média”. Em função dessa “estupenda” remuneração mensal, eles já teriam sido alçados à condição da elite, fazem parte das classes altas da sociedade brasileira! Uma loucura, para dizer o mínimo!

Trabalhadores ou classe média?

As políticas desenvolvidas ao longo da última década contribuíram para a melhoria das condições de vida da maioria da população. No entanto, o elevado grau de desigualdade social e econômica nos coloca ainda entre os países mais injustos do planeta. Assim, não se “acaba com a pobreza” da noite para o dia, apenas com uma canetada, estabelecendo um limite arbitrário de renda de forma injustificada. O caminho é longo e passa pelo aprofundamento das políticas de distribuição de renda. Não será por força dos limites quantitativos constantes de um eventual Decreto que o Brasil amanhecerá menos pobre ou menos injusto.

Reconhecer as significativas transformações ocorridas com a população de menor renda em nosso País ao longo dos últimos 10 anos não nos permite tentar avançar na deturpação dos dados da realidade. Não se pode ser conivente com a utilização política e eleitoral de informações viesadas, com o fim exclusivo de propiciar análises encomendadas para usufruto do governo de plantão. Renda do capital ainda é renda do capital, assim como renda do trabalho continua sendo renda trabalho. Por mais que a remuneração mensal dos despossuídos tenha evoluído, o conceito de classes sociais e seus conflitos de interesses continuam valendo para a análise do modo capitalista de produção.

 

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

 

COLUNA DO TIMM - 28 DE SETEMBRO

 

5.À MARGEM DAS VOZES

Paulo Timm – www.paulotimm.com.br

Essa história de CLASSE MEDIA a partir de míseros duzentos e poucos reais e com teto baixíssimo é um absurdo. Se não fosse de chorar eu pensaria que é PIADA, digna dos mais autoritários Governos. Até porque, CLASSE , mesmo a gelatinosa classe média, não é apenas uma classe de renda, mas um conjunto de características de natureza cultural, educacional, política e econômica que podem assim definir um segmento social. Nem precisa ir aos clássicos para saber disso. Basta dar uma olhada na popular wikipedia para confirmar:

"Classe média é uma classe social presente no capitalismo moderno que se convencionou tratar como possuidora de um poder aquisitivo e de um padrão de vida e de consumo razoáveis, de forma a não apenas suprir suas necessidades de sobrevivência como também a permitir-se formas variadas de lazer e cultura, embora sem chegar aos padrões de consumo eventualmente considerados exagerados das classes superiores. A classe média surgiu como uma consequência da consolidação do capitalismo e não antes dele devido aos fatores de segmentação social em camadas, resultantes do desenvolvimento econômico; é um fenômeno típico da industrialização."

 

Mas há,nessa questão toda da CLASSE MÉDIA, no Brasil, além da lacuna conceitual, uma grande fratura que acabará mal para o Governo.

 

Talvez até influenciado pela experiência chilena, ou sabendo do peso da classe média no Brasil – as professorinhas de Minas Gerais...! - o PT , desde o início, em 2003, pensou em duas coisas: GOVERNABILIDADE, para náo ser atropelado por uma SURPRESA de um Congresso inequivocamente conservador e CLASSE MÉDIA, independentemente de filigranas conceituais, pela importância que ela tem na formação da opinião pública . É ela que lê e ouve jornais, aliás, da grande mídia.

 

 

Até aí tudo bem, no sendeiro de se ter chegado ao Governos por via eleitoral , com débil respaldo embora majoritário, mas sob o olhar desconfiado das classes proprietáias, do dito mercado financeiro e porque não dizê-lo, das forças armadas . Tratava-se, aparentemente, de um PROJETO de CONSTRUIR A HEGEMONIA DA ESQUERDA NA SOCIEDADE BRASILEIRA. Algo muito influenciado pela tese gramsciana que vinha ocupando o lugar do velho estalinismo entre nós: O assalto ao Poder pela vanguarda do proletariado...

 

Mas aí , o que passa?

 

Não se pode associar GOVERNABILIDADE , a partir dos PARTIDOS que hoje fazem parte da BASE ALIADA do Governo, com endosso da CLASSE MÉDIA ao projeto do PT.

 

Por que?

 

Porque os Partidos que aí estão não representam NADA, muito menos a classe média tradicional, que mais peso tem na formação da opinião pública. O PMDB, por exemplo, nada tem a ver com a Democracia Cristã de Eduardo Frei, no Chile de Allende . São excrescências institucionais que FINGEM SENTIR QUE É DOR A DOR QUE DEVERAS SENTEM. Ou não sentem. São estruturas oligárquicas, tradicionais, sem qualquer CONEXÁO REAL com a SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA e seus principais interlocutores, hoje aninhados em ONGs. SINDICATOS ASSOCIAÇOES etc.

 

A BASE ALIADA até ajuda a Governança, IMPEDINDO tentativas de IMPEACHMENT, à la HONDURAS e PARAGUAI. Mas não respalda social e ideologicamente. Basta acompanhar as redes sociais para se verificar a ojeriza que a classe média tem com seus políticos. A consequência é que a OPOSIÇAO vai para a grande mídia, alimentada , aliás, pelas gordas verbas da publicidade oficial, sob o argumento de que detêm maiores índices de audiência..Uma verdadeira arapuca, alimentada pelo Governo...

 

E daí advém outro problema : O novo socialismo , inaugurado pelo PT, contrariamente aos modelos clássicos da social democracia européia, que consistia numa redistribuição capital/trabalho mais equitativa, se fundamente na transferência de renda da classe média alta para os mais pobres. E aí , então, para não criar um conflito aberto com a classe média em geral, o Governo ideologiza e enaltece o aparecimento de uma nova classe média, por baixo. O resultado é o Russomano , em Sáo Paulo, um candidato, precisamente, destes novos “desejantes”, criado pelo democratismo petista, como diria Renato Janine Ribeiro, ao associar PT , com aspirações democráticas por um mundo material melhor. Ou seja, tudo fazendo para obter o apoio da classe média, a qual, aparentemente, ainda dá à Dilma altos índices de aprovação, o PT , como Partido, que tem em Lula um verdadeiro ícone, está abrindo fraturas cada vez maiores na consciência crítica brasileira – como evidencia o artigo de Kliass - e está se divorciando da classe média. A mais alta, como bem diz Adriano Benayon, que nem sequer é rica, em termos internacionais – um pai de família que ganhe sete mil reais, deixa três para o Governo (INSS +IR) e vive com quatro mil, com os quais tem que pagar Plano de Saude, Escola para os filhos e despesas com o carro porque o sistema de transporte público não funciona, acaba , na verdade com uma disponibilidade liquida de mil dólares mensais, um bom salário mas longe de ser fonte de ódios de classe ou base para reconstrução social. O grande problema da concentração da renda no Brasil não é resultado dos altos salários da classe média, mas da elevadíssima concentração da propriedade, intacta - e até fortalecida - sob o Governo petista.

 


 


 
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